Dra. Pri DupratPediatria com abordagem integrativa

Febre em criança: quando medicar e quando ir ao pronto-socorro

Por Dra. Priscilla Duprat, pediatra (CRM/MG 56944) · Publicado em · 8 min de leitura · 5 referências

Termômetro digital marcando 36,9 °C sobre fundo claro
Resposta rápida

No Brasil, considera-se febre a temperatura axilar acima de 37,3 °C.1 O antitérmico serve para aliviar o desconforto da criança, e não para zerar o número do termômetro.12 Bebês com menos de 3 meses e 38 °C ou mais, ou qualquer criança muito abatida, com dificuldade para respirar, manchas que não somem à pressão ou convulsão, devem ser avaliados imediatamente.2

Febre é um dos motivos mais comuns de consulta e de noites em claro. A boa notícia: na maior parte das vezes, ela é um sinal de que o corpo está reagindo a uma infecção, e não um perigo em si.3 Saber medir, quando medicar e quais sinais pedem avaliação rápida deixa a família mais segura e evita idas desnecessárias ao pronto-socorro.

O que é febre e como medir a temperatura do jeito certo

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) considera febre a temperatura axilar acima de 37,3 °C.1 O valor de referência muda conforme o local da medida:

Local da medidaConsidera-se febre acima de
Axila37,2 a 37,3 °C
Boca37,5 a 37,8 °C
Ouvido37,8 a 38 °C
Reto38 a 38,3 °C

Em casa, a SBP recomenda o termômetro digital na axila, em qualquer idade. O termômetro de ouvido (infravermelho) é indicado apenas depois de 1 mês de vida, a medida oral deve ser evitada e o termômetro de mercúrio não é recomendado, pelo risco de quebra e intoxicação.1 A diretriz britânica NICE também orienta não usar rotineiramente as vias oral e retal em menores de 5 anos e considera pouco confiáveis as fitas de testa.2

Febre é doença? Por que o corpo esquenta

Febre não é a doença: é um mecanismo fisiológico que ajuda o organismo a combater infecções. Quando o corpo detecta uma infecção, o cérebro eleva a temperatura como parte dessa defesa.5 A Academia Americana de Pediatria (AAP) afirma que não há evidência de que a febre, por si só, piore o curso da doença ou cause sequelas neurológicas.3

Por isso, o número no termômetro importa menos do que o estado geral da criança. A SBP lembra que a intensidade da febre, isoladamente, não indica infecção bacteriana grave, com exceção dos bebês menores de 3 meses.1

Quando dar antitérmico: o objetivo é o conforto, não o número

Não existe um valor fixo de temperatura para começar o antitérmico. A SBP orienta usar o remédio quando a febre causa desconforto evidente: choro intenso, irritabilidade, menos atividade, menos apetite ou sono atrapalhado.1 O NICE vai na mesma linha: não usar antitérmico com o único objetivo de baixar a temperatura.2 A AAP resume que a meta principal é melhorar o conforto da criança, e não normalizar a temperatura.3

Na prática, uma criança com 38,5 °C que brinca, mama e se hidrata bem pode não precisar de remédio naquele momento. Já uma criança com 37,8 °C muito abatida e chorosa pode se beneficiar dele, e merece atenção ao conjunto do quadro.

Outro ponto importante: antitérmicos não previnem convulsão febril e não devem ser usados com essa finalidade.2 A dose é calculada pelo peso, e não pela idade. A SBP alerta, por exemplo, que a conta de “1 gota por quilo” de dipirona leva a superdosagem com o produto de referência.1 A dose individual deve ser definida pelo pediatra.

Sinais de alerta: quando ir ao pronto-socorro

Alguns sinais pedem avaliação médica imediata, qualquer que seja a temperatura:

  • Bebê com menos de 3 meses e temperatura de 38 °C ou mais: é considerado grupo de alto risco e deve ser avaliado logo.24
  • Pele muito pálida, manchada (rendilhada), acinzentada ou azulada, inclusive lábios e língua.2
  • Criança que não responde a estímulos, não acorda ou não se mantém acordada, ou tem choro fraco, agudo ou contínuo.2
  • Gemência (gemido a cada respiração), respiração muito acelerada ou com retração (a pele “afunda” entre as costelas).2
  • Manchas na pele que não somem quando pressionadas, moleira abaulada (estufada), rigidez de nuca ou convulsão.24
  • Temperatura que sobe repetidamente acima de 40 °C.4

Entre 3 e 6 meses, temperatura de 39 °C ou mais coloca o bebê, no mínimo, em risco intermediário, e ele também deve ser examinado.2 Crianças com doença que afeta a imunidade, que usam corticoide ou que têm doença cardíaca também precisam de contato precoce com o médico.4 Se o quadro respiratório chamar atenção, vale ler também sobre sinais de alerta da bronquiolite.

Erros comuns no manejo da febre

  • Alternar ou combinar antitérmicos por conta própria. Paracetamol, dipirona e ibuprofeno agem de forma semelhante. A SBP não recomenda combinar nem intercalar: a alternância não tem benefício comprovado e aumenta o risco de erro de dose e intoxicação.1 O NICE admite alternar apenas em situações específicas, quando o desconforto persiste antes da próxima dose, e nunca dar os dois ao mesmo tempo.2 Essa decisão é do pediatra.
  • Banho frio, compressas, gelo ou álcool. Métodos físicos têm efeito curto e aumentam o desconforto, com calafrios e irritabilidade.1 A AAP lembra que banho com álcool, bolsas de gelo e compressas não são mais recomendados e podem fazer mal.5
  • Dar AAS (ácido acetilsalicílico). Não é recomendado para febre em crianças, pelo risco de síndrome de Reye.1
  • Agasalhar demais. A criança com febre não deve ficar nem sem roupa nem muito enrolada; uma camada leve de roupa costuma bastar.25
  • Medicar “pelo número”. Dar antitérmico só porque o termômetro marcou um valor, com a criança bem, não é o objetivo do tratamento.12

Hidratação e cuidados em casa

Com febre, a criança perde líquidos mais rápido. Oferecer líquidos com frequência é uma das medidas mais importantes.5 Para bebês amamentados, o leite materno é o líquido mais adequado.2 Fique atenta a sinais de desidratação, como boca e lábios muito secos.1

Observe também o comportamento: atividade, interesse em brincar e resposta a estímulos dizem muito sobre a gravidade.13 Guarde os antitérmicos em local seguro, fora do alcance das crianças, e meça a dose com um dosador adequado.3

Quando procurar o pediatra

Além dos sinais de alerta acima, procure o pediatra se:

  • a criança tem menos de 2 anos e febre há mais de 24 horas, ou tem 2 anos ou mais e febre há mais de 3 dias;4
  • a febre dura 5 dias ou mais;2
  • a criança continua “com cara de doente” mesmo depois que a febre baixa, ou parece estar piorando;4
  • surgem dor de ouvido forte, dor de garganta intensa, dor de cabeça forte, vômitos ou diarreia repetidos;4
  • você sente que a criança está pior ou está mais preocupada do que da última vez que buscou orientação.2

A intuição de quem cuida conta. A própria diretriz do NICE reconhece a percepção dos pais como motivo válido para nova avaliação.2 Para entender quando o antibiótico é de fato necessário, leia antibiótico em criança: quando é necessário. E se os episódios parecem não ter fim, veja o texto sobre a criança que vive gripada.

Como eu olho para isso no consultório

No consultório, eu vejo que o medo da febre costuma diminuir quando a família entende o que está acontecendo. Minha orientação é olhar primeiro para a criança, e depois para o termômetro: como ela está brincando, mamando, se hidratando e respondendo. Ter um plano claro, com o antitérmico certo, a dose pelo peso e os sinais que pedem avaliação, traz tranquilidade.

No olhar integrativo, cada episódio de febre também é uma oportunidade de cuidar do terreno: sono, alimentação, hidratação e vacinas em dia ajudam a criança a atravessar as infecções comuns da infância com mais tranquilidade. Isso complementa, e não substitui, a avaliação médica quando os sinais de alerta aparecem.

Febre em criança: o essencial: Febre (axila) — Acima de 37,3 °C; Como medir em casa — Termômetro digital na axila; Por que dar antitérmico — Para aliviar o desconforto, não pelo número; Menor de 3 meses com 38 °C ou mais — Avaliação médica imediata; Alternar antitérmicos — Não recomendado pela SBP sem orientação; Febre por 5 dias ou mais — Procure o pediatra.
Febre em criança: o essencial. Fonte: SBP (2021); NICE NG143 (2019, atualizada em 2021).

Perguntas frequentes

A partir de quantos graus é febre em criança?

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria considera febre a temperatura axilar acima de 37,3 °C. O valor muda conforme o local: na boca, acima de 37,5 a 37,8 °C; no ouvido, acima de 37,8 a 38 °C; no reto, acima de 38 a 38,3 °C. Em casa, o mais indicado é o termômetro digital na axila, em qualquer idade.

Preciso dar antitérmico sempre que a criança tiver febre?

Não. A SBP orienta que não existe um valor fixo de temperatura para iniciar o antitérmico. Ele é indicado quando a febre causa desconforto evidente, como choro intenso, irritabilidade, menos apetite ou sono atrapalhado. Uma criança febril que brinca e se hidrata bem pode não precisar de remédio naquele momento. A dose é sempre pelo peso e definida pelo pediatra.

Posso alternar dipirona, paracetamol e ibuprofeno?

A SBP não recomenda alternar nem combinar antitérmicos: a prática não tem benefício comprovado e aumenta o risco de erro de dose e intoxicação. A diretriz britânica NICE admite alternar só em casos específicos, quando o desconforto volta antes da próxima dose, e nunca dar dois ao mesmo tempo. Essa decisão deve ser tomada com o pediatra.

Banho frio ou compressa com álcool ajudam a baixar a febre?

Não são recomendados. A SBP explica que métodos físicos têm efeito curto e aumentam o desconforto, com calafrios e irritabilidade. A Academia Americana de Pediatria afirma que banho com álcool, bolsas de gelo e compressas não são mais indicados e podem fazer mal. O melhor é manter roupas leves e oferecer líquidos com frequência.

Febre alta pode causar convulsão ou dano cerebral?

A Academia Americana de Pediatria afirma que não há evidência de que a febre, por si só, cause sequelas neurológicas a longo prazo. A convulsão febril pode acontecer em algumas crianças, mas os antitérmicos não a previnem, segundo o NICE. Qualquer convulsão, porém, é motivo para avaliação médica imediata.

Quando a febre do bebê é uma emergência?

Bebês com menos de 3 meses e temperatura de 38 °C ou mais devem ser avaliados imediatamente, pois estão em grupo de alto risco. Em qualquer idade, procure atendimento urgente se houver pele pálida ou azulada, criança que não acorda ou não responde, gemido ao respirar, respiração muito acelerada, manchas que não somem à pressão, moleira estufada, rigidez de nuca ou convulsão.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Manejo da febre aguda. Documento Científico. 2021. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23229e-DC_Manejo_da_febre_aguda_SITE.pdf
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Fever in under 5s: assessment and initial management. NICE guideline NG143. 2019 (atualizada em 2021). https://www.nice.org.uk/Guidance/Ng143/Chapter/Recommendations
  3. Sullivan JE, Farrar HC; Section on Clinical Pharmacology and Therapeutics; Committee on Drugs. Fever and antipyretic use in children. Pediatrics. 2011;127(3):580-7. https://doi.org/10.1542/peds.2010-3852
  4. American Academy of Pediatrics. When to call the pediatrician (fever). HealthyChildren.org. Atualizado em 2022. https://www.healthychildren.org/English/health-issues/conditions/fever/pages/When-to-Call-the-Pediatrician.aspx
  5. American Academy of Pediatrics. Fever without fear. HealthyChildren.org. Atualizado em 2025. https://www.healthychildren.org/English/health-issues/conditions/fever/Pages/Fever-without-Fear.aspx

Como citar: Duprat P. Febre em criança: quando medicar e quando ir ao pronto-socorro. priduprat.com.br; 2026. Disponível em: https://www.priduprat.com.br/blog/febre-em-crianca-quando-medicar.html

Dra. Priscilla Duprat

Dra. Priscilla Duprat é pediatra e neonatologista (CRM/MG 56944 · RQE 37210), mestre em Ciências da Saúde pela UFU e coordenadora do curso de Medicina Integrativa em Saúde da Criança e da Mulher do Hospital Israelita Albert Einstein. Conteúdo educativo, baseado nas referências acima; não substitui a consulta médica.

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